A transição energética brasileira tem na geração eólica e solar dois de seus pilares mais relevantes. Em 2024, os ventos responderam por 14% da geração elétrica do país, enquanto a energia fotovoltaica consolidou-se como a segunda maior fonte em capacidade instalada, com 48 GW, e a terceira em geração efetiva, com 70 mil GWh.
Apesar do avanço, os efeitos das mudanças climáticas já impõem riscos operacionais e estruturais que podem redefinir o ritmo e a sustentabilidade da expansão dessas fontes.
Eventos extremos, como tempestades, secas, ondas de calor e enchentes, têm afetado diretamente a operação de parques eólicos e usinas solares.
No caso da eólica, rajadas intensas vêm provocando danos estruturais em torres e aerogeradores, além de dificultar o acesso logístico a empreendimentos em áreas alagadas.
Já na solar, registros de ventos acima de 100 km/h em estados como Tocantins e Minas Gerais danificaram módulos e estruturas, enquanto enchentes no Rio Grande do Sul comprometeram instalações e queimadas reduziram a irradiação solar.
A operação solar também sofre com o aumento da temperatura ambiente, que reduz a eficiência dos módulos, e com a maior frequência de chuvas e ventos extremos, que ampliam custos de manutenção e riscos de falhas.
No caso da eólica, a variabilidade dos ventos tem afetado a previsibilidade da geração, pressionando os modelos de planejamento.
De acordo com o IPCC e estudos nacionais, há tendência de aumento da velocidade média dos ventos em regiões como Sul e Sudeste do país, acompanhada de maior incidência de rajadas extremas.
Para a geração solar, o Plano Clima aponta aumento da irradiação em parte do território nacional, sobretudo no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O cenário, no entanto, vem acompanhado de maior risco de chuvas severas, ondas de calor e condições favoráveis a incêndios.
Essa combinação de oportunidades e ameaças cria um ambiente de incerteza para investidores e operadores, exigindo o fortalecimento das modelagens climáticas regionais e a integração de cenários de longo prazo nos processos de expansão e viabilidade econômico-financeira.
Vulnerabilidades setoriais
A geração solar apresenta uma característica crítica: sua dependência direta da irradiação, altamente sensível a nebulosidade, fumaça e partículas em suspensão. Além disso, a micro e minigeração distribuída (MMGD), que já representa 42 GW da capacidade instalada, tem estruturas menos robustas, aumentando a exposição a ventos extremos e chuvas intensas.
Na eólica, a concentração dos parques em regiões específicas, como o Nordeste, também eleva a vulnerabilidade a mudanças na variabilidade dos ventos e a eventos climáticos localizados.
Tanto para eólica quanto para solar, especialistas e órgãos de planejamento como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) defendem a adoção de estratégias mais robustas de adaptação, incluindo:
- Revisão dos critérios de projeto, com a inclusão de cenários climáticos futuros.
- Fortalecimento da infraestrutura física, com materiais mais resistentes e sistemas redundantes.
- Investimentos em monitoramento meteorológico e previsão de eventos extremos.
- Planos de contingência e protocolos de emergência para empreendimentos.
- Regulação técnica específica, sobretudo para MMGD, incorporando avaliações de risco climático nos processos de licenciamento.
- Promoção de inovação, com destaque para armazenamento, integração em redes inteligentes e diversificação da matriz.
No horizonte próximo, a regulamentação da geração eólica offshore desponta como alternativa promissora, com potencial estimado em 700 GW, mas também exigirá estudos detalhados sobre impactos climáticos em ambientes marinhos.
A expansão da energia renovável no Brasil, vista como estratégica para reduzir emissões e garantir segurança energética, está diante de um ponto de inflexão. A continuidade desse crescimento dependerá da capacidade de adaptação do setor às novas condições climáticas.
Para analistas, a chave está em três frentes: modernizar os modelos de planejamento, fortalecer a governança regulatória e ampliar a coordenação entre agentes públicos e privados. Somente assim será possível sustentar o protagonismo da eólica e da solar, mantendo o equilíbrio entre modicidade tarifária, segurança de suprimento e resiliência climática.