O mercado de baterias está ganhando espaço no Brasil e no mundo. Esse avanço resulta de uma combinação de fatores, como evolução tecnológica, aumento da densidade energética, redução de custos e maior conhecimento sobre o funcionamento e as aplicações desses equipamentos.
Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), os custos associados ao armazenamento de energia em baterias caíram 46% entre 2020 e 2025. Uma análise da BloombergNEF também aponta que os preços das baterias de íons de lítio recuaram mais de 93% entre 2010 e 2024.
Com o aumento da competitividade, esses equipamentos estão se tornando mais acessíveis, sobretudo para aplicações comerciais e industriais. No futuro, a tecnologia também poderá ganhar maior espaço entre os consumidores residenciais.
O armazenamento em grande escala, conhecido como utility scale, também está avançando devido à evolução regulatória e à necessidade de oferecer segurança e flexibilidade aos sistemas elétricos com elevada participação de fontes renováveis.
Neste artigo, porém, vamos abordar o uso das baterias no lado do consumidor final. Essa aplicação é conhecida como BTM, sigla para behind the meter, ou “atrás do medidor”.
Entre suas principais aplicações estão:
- fornecimento de energia de emergência;
- redução de picos de demanda, ou peak shaving;
- redução do consumo da rede no horário de ponta;
- melhoria da qualidade da energia;
- integração com sistemas de geração própria.
Acompanhe este conteúdo e entenda como as baterias podem contribuir para reduzir custos, elevar a segurança energética e melhorar a gestão de energia de grandes consumidores.
Fornecimento de energia em emergências
As interrupções no fornecimento de energia são mais frequentes do que se imagina. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) indicam que cada consumidor brasileiro ficou, em média, cerca de 9 horas e 18 minutos sem energia ao longo de 2025.
Em caso de interrupção, as baterias podem manter determinadas cargas em funcionamento durante minutos ou horas. A autonomia depende da capacidade do sistema, da potência dos equipamentos atendidos e do consumo durante o período.
Essa função é importante para cargas essenciais, como máquinas industriais, equipamentos de refrigeração, sistemas de iluminação, elevadores, equipamentos hospitalares e dispositivos de segurança.
Em alguns projetos, o fornecimento de energia de emergência pode não ser suficiente, isoladamente, para justificar o investimento. No entanto, essa aplicação pode ajudar a viabilizar o sistema quando combinada com outros benefícios, como redução de demanda, deslocamento do consumo e melhoria da qualidade da energia.
Redução de picos de demanda (peak shaving)
A demanda contratada representa a potência que o consumidor reserva junto à distribuidora para atender suas instalações. Em termos simples, é como reservar capacidade na rede para garantir que a infraestrutura elétrica seja suficiente para suportar as necessidades da unidade consumidora.
É comum que uma empresa contrate uma demanda superior à sua demanda média para atender momentos específicos de maior consumo. Se o valor registrado ultrapassar os limites estabelecidos pela regulação, o consumidor poderá pagar tarifas de ultrapassagem.
As baterias podem ser acionadas nesses momentos para fornecer parte da potência necessária. Com isso, reduzem o pico medido pela distribuidora e podem permitir a contratação de uma demanda menor.
Essa estratégia, conhecida como peak shaving, tende a ser mais adequada para consumidores que apresentam picos elevados e de curta duração. A aplicação pode ser menos atrativa quando esses picos permanecem por várias horas ou quando a demanda média já está próxima da demanda contratada.
Por isso, o dimensionamento precisa considerar a curva de carga da unidade consumidora. Não basta avaliar apenas o consumo mensal de energia.
Redução do consumo da rede no horário de ponta
As baterias também podem ajudar a reduzir o consumo de energia da rede nos horários de ponta, quando as tarifas de uso do sistema de distribuição geralmente são mais elevadas.
Nessa estratégia, o sistema é carregado durante períodos de menor custo e descarregado no horário de ponta. Assim, parte da energia que seria fornecida pela distribuidora é substituída pela energia armazenada.
Os horários e as tarifas aplicáveis variam conforme a distribuidora, o subgrupo tarifário e a modalidade contratada pelo consumidor. Quanto maior for a diferença de custos entre os períodos de ponta e fora de ponta, maior tende a ser o benefício econômico do armazenamento.
A atratividade também depende da eficiência do sistema, da quantidade de ciclos, da degradação das baterias e dos custos de investimento e operação.
Melhoria da qualidade da energia
Oscilações de tensão, afundamentos momentâneos e outras perturbações na rede podem provocar prejuízos relevantes em processos industriais. Mesmo interrupções muito curtas podem desligar máquinas, paralisar linhas de produção, comprometer matérias-primas e exigir a reinicialização de equipamentos.
Como podem ser acionadas rapidamente, as baterias ajudam a manter o fornecimento durante determinados distúrbios. Dependendo da configuração do sistema, elas podem oferecer maior estabilidade às cargas mais sensíveis e reduzir os impactos das variações na rede.
Essa aplicação pode ser especialmente relevante para indústrias com processos contínuos, centros de dados, hospitais, redes varejistas e instalações que dependem de elevado padrão de qualidade da energia.
Integração com geração própria
Consumidores que possuem geração própria também podem se beneficiar do uso de baterias.
Quando a produção de energia supera o consumo instantâneo, o excedente pode ser armazenado para utilização posterior. A energia acumulada pode ser descarregada quando a geração for insuficiente, durante o horário de ponta ou em momentos de maior consumo.
Com isso, o consumidor aumenta o aproveitamento local da energia produzida e reduz sua dependência da rede. A estratégia também pode melhorar o retorno do sistema de geração própria, principalmente quando o valor econômico da energia armazenada é superior ao benefício obtido com a injeção do excedente.
Entretanto, a viabilidade dessa aplicação depende das regras aplicáveis à unidade consumidora, do perfil de geração, da curva de carga e da forma de valorização da energia injetada na rede.
Conclusão
Como vimos, as baterias atrás do medidor podem cumprir diferentes funções: fornecer energia em emergências, reduzir picos de demanda, deslocar o consumo da rede no horário de ponta, melhorar a qualidade da energia e ampliar o aproveitamento da geração própria.
O principal desafio é encontrar uma combinação de aplicações que justifique o investimento. Em geral, a viabilidade econômica não depende de um único benefício, mas do chamado empilhamento de receitas e economias, no qual o mesmo sistema atende diferentes necessidades do consumidor.
Além da aquisição direta, algumas empresas podem avaliar modelos como o Energy as a Service. Nesse formato, um prestador realiza o investimento e disponibiliza os equipamentos ao consumidor, enquanto a remuneração pode ocorrer por meio de pagamentos periódicos ou do compartilhamento das economias obtidas.
Antes de investir, portanto, é necessário analisar a curva de carga, a demanda contratada, as tarifas, a criticidade dos processos, a geração própria e os custos provocados por falhas no fornecimento. É esse diagnóstico que permitirá identificar quais problemas a bateria pode resolver e se o projeto apresenta retorno econômico para o negócio.