A integração de Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN), concluída em setembro de 2025, representa um dos marcos mais relevantes da história recente do setor elétrico brasileiro.
Além de encerrar décadas de isolamento energético do único estado que ainda operava fora do sistema nacional, o empreendimento inaugura uma nova fase para a segurança elétrica na região.
A conexão foi viabilizada pela entrada em operação da Linha de Transmissão (LT) Manaus–Boa Vista, conhecida como “Linhão de Roraima”, um projeto debatido por mais de uma década e que envolveu desafios técnicos, econômicos e socioambientais.
O último sistema isolado
Até setembro de 2025, Roraima dependia majoritariamente de geração termelétrica local para atender sua demanda elétrica. A condição de sistema isolado tornava o estado mais vulnerável a interrupções de fornecimento, elevava os custos operacionais e exigia elevados subsídios para viabilizar a geração.
A entrada em operação da LT Manaus–Boa Vista mudou esse cenário. Com 724 quilômetros de extensão, capacidade de transmissão de 1.000 MW, tensão de 500 kV e investimento de aproximadamente R$ 3,3 bilhões, a infraestrutura passou a conectar o estado ao restante do país por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O projeto foi dimensionado para transportar uma carga cerca de quatro vezes superior à demanda atual de Roraima, criando condições para o crescimento futuro do consumo e para possíveis expansões econômicas da região.
Os primeiros resultados operacionais já demonstram os benefícios da integração. Dados citados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que, entre janeiro e setembro de 2025, antes da interligação, foram registradas 243 perturbações com corte de carga em Roraima, das quais três resultaram em blecautes. Após a energização da linha, entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, ocorreram apenas 23 perturbações e nenhum apagão.
A redução dos eventos de interrupção evidencia um dos principais objetivos da obra: aumentar a confiabilidade do atendimento elétrico e reduzir a exposição do estado a falhas operacionais dos sistemas isolados.
Atualmente, o fornecimento ocorre por meio de um modelo híbrido. Segundo os procedimentos definidos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aproximadamente 55% da carga é atendida pela interligação ao SIN, enquanto parte do parque gerador local permanece em operação para garantir flexibilidade e segurança.
Redução de emissões e dos custos sistêmicos
Os impactos ambientais também aparecem entre os principais benefícios da interligação. Com a redução gradual da geração termelétrica movida a óleo diesel, a EPE estima um potencial de diminuição de até 300 mil toneladas anuais de emissões de dióxido de carbono (CO₂) já em 2026, tomando como referência os níveis registrados em 2024.
Além da questão ambiental, há efeitos econômicos relevantes para todo o setor elétrico brasileiro. A expectativa é que a integração reduza em aproximadamente R$ 540 milhões por ano os gastos associados à Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), encargo utilizado para subsidiar a geração térmica nos sistemas isolados.
Como a CCC é paga pelos consumidores brasileiros por meio das tarifas de energia, a redução dessa necessidade de subsídio tende a gerar benefícios de longo prazo para todos os brasileiros.
Impactos sobre os Sistemas Isolados
A entrada de Roraima no SIN produziu mudanças significativas nos indicadores nacionais dos Sistemas Isolados. Segundo a EPE, a integração conectou cerca de 209 mil unidades consumidoras ao sistema nacional. Como consequência, houve uma redução de 35% no número de unidades consumidoras atendidas pelos Sistemas Isolados e uma queda de 52% no consumo desses sistemas em outubro de 2025, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Em Roraima especificamente, a redução do consumo atendido por sistemas isolados alcançou 98% logo após a interligação.
O resultado reforça uma tendência observada ao longo das últimas duas décadas. Desde 2009, com as sucessivas integrações da Amazônia Legal ao SIN – incluindo Acre, Rondônia, Amazonas, Amapá e, mais recentemente, Roraima – o consumo dos Sistemas Isolados acumulou queda de 83%.
Oportunidades para o Mercado Livre de Energia
Uma das mudanças mais relevantes para o ambiente de negócios é a possibilidade de consumidores do Grupo A passarem a migrar para o Ambiente de Contratação Livre (ACL).
Enquanto o estado operava isoladamente, não havia condições regulatórias e operacionais para participação plena no mercado livre. Com a conexão ao SIN, empresas de médio e grande porte passam a ter acesso ao modelo que permite negociar energia diretamente com comercializadoras e geradores.
A abertura dessa alternativa pode aumentar a competitividade energética do estado, reduzir custos para consumidores e estimular novos investimentos no setor produtivo.
A expectativa apresentada pela EPE é que a maior estabilidade elétrica, associada à possibilidade de contratação livre de energia, contribua para atrair empreendimentos industriais e logísticos voltados tanto ao mercado local quanto à exportação para países vizinhos do Caribe e da América do Sul.
Desafios da transição tarifária
Apesar dos benefícios estruturais, a integração também traz desafios para os consumidores de Roraima. Durante sua condição de sistema isolado, grande parte dos custos de geração era coberta pela CCC. Com a entrada no SIN, os consumidores passam a estar sujeitos à mesma estrutura tarifária aplicada aos demais estados brasileiros.
Isso significa a incorporação de encargos e componentes tarifários inexistentes anteriormente, como Encargos de Serviços do Sistema (ESS); Encargo de Energia de Reserva (EER); Encargo de Potência para Reserva de Capacidade (Ercap); e participação nos custos associados ao risco hidrológico das hidrelétricas contratadas no mercado regulado.
Na prática, o ganho em confiabilidade e integração vem acompanhado de uma adaptação ao modelo tarifário nacional, exigindo equilíbrio entre os benefícios sistêmicos e os impactos econômicos para os consumidores locais.
Perspectivas para o futuro
A interligação de Roraima não representa o fim dos investimentos na região. Segundo a EPE, já estão em desenvolvimento novos estudos de transmissão voltados ao atendimento da região sul do estado e ao reforço estrutural do sistema recém-implantado, com o objetivo de ampliar a resiliência da rede e sustentar o crescimento futuro da demanda.
Do ponto de vista energético, a conexão ao SIN posiciona Roraima em um novo patamar de integração nacional. A redução dos riscos de suprimento, a diminuição dos subsídios à geração isolada e a abertura ao Mercado Livre de Energia criam condições para uma transformação gradual da economia local.
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