O consumo de energia elétrica no Brasil apresentou retração de 0,3% no primeiro trimestre de 2026, interrompendo a trajetória de crescimento observada em períodos anteriores.
Apesar da desaceleração, os dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) revelam um movimento importante no mercado: o avanço contínuo do Ambiente de Contratação Livre (ACL), impulsionado principalmente pelos consumidores comerciais, enquanto o consumo industrial segue em queda.
O mercado livre respondeu por 44,1% de toda a eletricidade consumida no país entre janeiro e março, alcançando 64,2 TWh. No período, o consumo no ACL cresceu 2,8%, enquanto o número de consumidores avançou expressivos 27,5% na comparação com o mesmo trimestre de 2025. Em sentido oposto, o mercado regulado registrou queda de 2,6% no consumo.
Esse desempenho reforça os efeitos da abertura do mercado livre para todos os consumidores conectados em alta tensão, iniciada em 2024. Desde então, cerca de 47 mil unidades consumidoras migraram para o ACL, e a expectativa é que outras 10 mil realizem a transição ao longo de 2026.
Comércio lidera crescimento do mercado livre
O principal motor dessa expansão tem sido o setor comercial. Segundo a EPE, o consumo livre da classe comercial avançou 10,1% no primeiro trimestre, enquanto o consumo comercial no mercado cativo recuou 6,3%. O movimento evidencia a continuidade da migração de empresas para o ACL em busca de maior competitividade e previsibilidade de custos.
Como resultado, a participação da classe comercial no consumo total do mercado livre aumentou de 19,0% para 20,3% em um ano. Já a participação da indústria, embora ainda predominante, caiu de 73,4% para 71,3%.
Além da migração para o ACL, o próprio desempenho da economia contribuiu para o crescimento do segmento comercial. O consumo de energia da classe atingiu 27,9 TWh, o maior volume já registrado para um primeiro trimestre na série histórica da EPE, com expansão de 0,7% sobre igual período de 2025. O resultado interrompe três trimestres consecutivos de retração.
O avanço foi sustentado pela expansão dos setores de comércio e serviços. O volume de serviços prestados cresceu 2,3%, enquanto as vendas do comércio varejista avançaram 2,4%, com destaque para segmentos ligados à tecnologia da informação, equipamentos de informática, comunicação e eletrodomésticos.
Consumo industrial recua pelo terceiro trimestre seguido
Na contramão do mercado livre e do setor comercial, a indústria continuou reduzindo o consumo de eletricidade. O consumo industrial somou 48,2 TWh no primeiro trimestre, queda de 1,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o terceiro trimestre consecutivo de retração após uma sequência de 13 trimestres de crescimento.
O resultado chama atenção porque ocorre em um cenário de expansão da atividade econômica industrial. Enquanto o PIB da indústria cresceu 1,6%, o consumo elétrico caiu, refletindo principalmente a fraqueza de segmentos eletrointensivos da indústria de transformação.
Entre os setores que mais reduziram o consumo de energia destacam-se metalurgia (-6,8%), automotivo (-5,6%), químicos (-5,0%) e produtos metálicos (-4,0%). No total, 26 dos 37 segmentos industriais monitorados pela EPE registraram retração.
Por outro lado, alguns setores apresentaram desempenho positivo, como extração de minerais metálicos (+12,4%), papel e celulose (+4,2%) e produtos alimentícios (+2,6%), ajudando a reduzir a intensidade da queda no consumo industrial agregado.
Residencial mantém crescimento e bate recorde
A classe residencial foi a que apresentou o melhor desempenho entre os grandes segmentos consumidores. O consumo atingiu 48,9 TWh no primeiro trimestre, crescimento de 1,3% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior volume já registrado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica da EPE, em 2004.
O resultado foi favorecido pelo aumento do número de consumidores, que cresceu 2%, adicionando cerca de 1,7 milhão de unidades consumidoras em um ano. A melhora dos indicadores de emprego e renda, o crescimento das vendas de eletrodomésticos e a manutenção da bandeira tarifária verde também contribuíram para sustentar o consumo.
Regionalmente, o Norte liderou a expansão do consumo residencial, com crescimento de 7,0%, seguido por Centro-Oeste (+3,9%), Nordeste (+2,8%) e Sul (+1,3%). O Sudeste foi a única região a registrar retração (-0,7%), influenciada principalmente pelas quedas observadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, associadas a temperaturas mais amenas e maior volume de chuvas.
Mercado livre ganha protagonismo
Os números do primeiro trimestre mostram que o principal vetor de crescimento do consumo de energia no Brasil não está mais na indústria, tradicionalmente responsável pela maior parte da demanda do ACL.
A expansão acelerada do mercado livre entre consumidores comerciais vem alterando o perfil do setor elétrico brasileiro e ampliando a participação desse segmento no consumo nacional.
Enquanto a indústria enfrenta um período de acomodação, marcado pela queda do consumo em setores eletrointensivos, o avanço do comércio e dos serviços, aliado à migração de consumidores para o ACL, consolida o mercado livre como um dos principais motores da dinâmica de consumo de eletricidade no país em 2026.